O pequeno templo com três cruzes na torre chama a atenção de peregrinos que trilham o caminho das Missões, em São João Tujá, no município de Garruchos, a 650 quilômetros de Porto Alegre. Três famílias religiosas, representadas nas três cruzes, têm na Igreja Ecumênica da Trindade o seu local de culto.
Edelberto Behs
“Sozinhos não teríamos condições de construir a igreja”, disse o pastor Wolter Becher, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), há oito anos radicado em São Luiz Gonzaga, de onde presta atendimento pastoral às 20 famílias da denominação que vivem em São João Tujá.
A cada início de novembro, as três famílias religiosas – católica, evangélica de confissão luterana e luterana – unem-se para o culto ecumênico, que lembra a inauguração do templo, há seis anos. O templo é administrado por uma diretoria, que observa o sistema de rodízio na presidência, que é eleita a cada dois anos.
A igreja é muito simples, apropriada para abrigar as 80 famílias de São João Tujá, nem todas seguidoras de uma das três denominações históricas. “Quando cheguei aqui, havia quatro igrejas pentecostais, hoje são oito, nascidas de cismas internos”, relatou o pastor Becher.
A construção de um templo ecumênico nasceu da persistência da professora Neide Kochenborger Klein. Ela fizera promessa de que se passasse no concurso ao magistério, se empenharia na construção de um templo para São João Tujá. Até então, cultos e missas eram celebrados em salão comunitário ou na escola.
“Todo esse trabalho só foi possível porque pude contar com o apoio das pessoas, da comunidade”, disse Neide, que chegou a Garruchos em 1988 e hoje é diretora da escola local. Envolvida em projetos sociais, a professora busca a integração e união da comunidade.
O terreno onde foi erigida a Igreja da Trindade foi doado por paroquiano local. O templo foi construído em dez meses, em regime de mutirão, e custou 29 mil reais (cerca de 13,2 mil dólares), com recursos angariados no município. “Nós só contratamos um mestre de obras”, informou Neide.
O que rege as relações entre as três famílias confessionais é o respeito mútuo. O horário das celebrações é observado, assim que cada denominação tenha o seu espaço de culto.
“Cada denominação enfeita o altar a seu modo. Quando católicos celebram, eles colocam no altar a santa que, terminada a missa, é recolhida. As paredes não têm qualquer imagem”, descreveu a pastor Alice Griebeler, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), que conta com apenas duas famílias na localidade. Alice também reside em São Luiz Gonzaga.
São João Tujá fica a 45 quilômetros da sede de Garruchos, município que tem uma população de 3,6 mil habitantes, com tendência a decrescer por causa do acentuado êxodo rural. Na região, agricultores cultivam soja e investem na produção de leite. Jovens preferem, contudo, a vida da cidade.
“O que nos une é a pregação da Palavra de Deus num lugar de culto”, frisou o pastor da IELB. Neide relatou que o bispo diocesano, dom José Clemente Weber, visitou São João Tujá e ficou admirado com a alternativa encontrada pelas famílias do local. Embora usem o mesmo espaço, cada uma das três denominações mantém a sua identidade, comentou.
Fonte: ALC, via Cristianismo Criativo
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Quando as denominações se unem
O que fazer como minorias de cristãos em uma área dominada por grandes religiões: bramanismo, islamismo, jainismo, sikismo, budismo? Como unir recursos para uma grande missão? Como testemunhar o evangelho em unidade? Como não ter uma face estrangeira (importação cultural) diante de culturas milenares? Essas questões incomodaram líderes cristãos da Índia, que iniciaram conferências ecumênicas desde 1855. Já em 1908 se dava a primeira fusão – de presbiterianos e congregacionais – com a criação da Igreja Unida do Sul da Índia. A Conferência de Traquebar, em 1919, recomendou o início de uma caminhada séria que levasse à fusão de denominações em Igrejas unidas.
Em 27 de setembro de 1947, foi finalmente criada a Igreja do Sul da Índia (http://www.csichurch.com/), com a fusão dos anglicanos, metodistas, presbiterianos, congregacionais e reformados holandeses, tendo como base o Quadrilátero de Lambeth (Escrituras, Credos, Sacramentos, Episcopado Histórico). Hoje a Igreja do Sul da Índia possui 15.000 congregações, com 3 milhões e 800 mil membros, 2.000 escolas, 130 faculdades, 104 hospitais e 500 abrigos para 35.000 crianças.
Como fruto do mesmo movimento, foi criada, em 29 de novembro de 1970, a Igreja do Norte da Índia, com a união de anglicanos, metodistas, presbiterianos, batistas, irmão livres (irmão de Plymouth) e discípulos de Cristo. A Igreja do Norte da Índia (http://www.cnisynod.org/) possui 26 Dioceses, 1 milhão e 250 mil membros, 65 hospitais e 250 instituições denominacionais.
Inicialmente, houve uma aceitação de todas as ordenações, a criação de um Episcopado histórico pela imposição de mãos de Bispos Anglicanos e da Igreja Siriana Mar Thoma (reformada), e, a partir de então, todo o novo clero foi sendo Ordenado com sucessão apostólica. Essas Igrejas unidas e inculturadas têm crescido, principalmente com a conversão na casta dos parias (dalit) e nas populações tribais.
Em 01 de novembro de 1970 foi criada a Igreja do Paquistão (http://www.churchofpakistan.org.pk/), unindo anglicanos, metodistas, presbiterianos e luteranos, contando hoje com 800 mil membros, sob sérias restrições do regime islâmico.
Em 1971 o Paquistão Ocidental se separou do Paquistão Oriental, criando o país independente de Bangladesh. Isso levou, também, a divisão da Igreja. Em 1974, um sínodo deliberou pela criação da Igreja de Bangladesh.
Essas Igrejas incorporaram as diversas tradições denominacionais dentro do contexto cultural local, são presididas por um Moderador, têm um manual de liturgia inspirados no Livro de Oração Comum (LOC), e estão todas elas hoje filiadas à Comunhão Anglicana, como Províncias Autônomas. “Somos hoje todos bons anglicanos”, me dizia em abril passado o Reverendo Cônego Vinay Samuel, diretor do Centro de Oxford para Estudos Missiológicos, e ele mesmo um clérigo da Igreja do Sul da Índia.
Diante do incessante “rachismo” e “americanalhismo” da cristandade reformada brasileira atual, essas ações de unidade geradas pelo Espírito Santo em corações movidos pelo amor a causa e ao bom senso, nos serve de alento. Poderia algo semelhante acontecer também na Terra da Santa Cruz?
Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.
Fonte do texto: Pavablog
Montagem da imagem: Amenidades da Cristandade
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